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Nossa vida neoliberal

Gerson Neto

O neoliberalismo colocou o mundo em uma situação de profundo conflito. A acumulação de capital nas mãos de pouquíssimas pessoas, o aprofundamento do abismo social entre os pobres e os ricos, a redução e vulnerabilização das camadas médias do estrato econômico nos colocam um futuro de conflito social crescente. 

As experiências da social democracia estão desmoronando diante do avanço conservador orquestrado não se sabe de onde, e que tomou os governos de alguns países, notadamente: Inglaterra, Estados Unidos e Brasil entre eles. O Brexit foi o primeiro grande golpe contra a Social Democracia Européia. Mas precisamos nos perguntar o porquê da derrocada da Social Democracia e sua aliança com o Capitalismo. 

Na camada de baixo, aqui na vida real, vivíamos um processo de burocratização da vida, que levava a desumanização das relações políticas. Um sentimento de impotência e distanciamento. Parecia que a política seguia em piloto automático. O projeto social democrata, de alta sofisticação, não previa diálogo ou participação popular. Tudo era decidido tecnicamente, por cima. Isso abriu uma das sete portas do apocalipse para nos colocar na situação política em que estamos hoje.

Outro motivo do fim da social democracia foi o limite que ela impunha ao próprio capitalismo: os direitos, o respeito a coisa pública, a busca pela inclusão socioeconômica. E aqui sem se iludir, o PT foi um partido da Social Democracia até agora, tanto quanto o PSDB. Pois esses limites não eram mais suportáveis porque eles congelaram o neoliberalismo. O Capitalismo só funciona se estiver em constante aceleração. Essa aceleração permite a superação das crises que ele mesmo cria, porque em pouco tempo aquele prejuízo vira querela diante do crescimento sempre exponencial. Para continuar crescendo, o Capitalismo precisa engolir aqueles princípios protegidos pela social democracia: direitos, bens públicos e comuns, inclusão socioeconômica dos pobres, entre outros.

O neoliberalismo propõe a retomada do capitalismo selvagem. Em 2018, a soma do patrimônio das 26 pessoas mais ricas do mundo equivalia a soma do patrimônio das 3,8 bilhões mais pobres, 50% de toda a humanidade. Em 2017, 82% de todas as riquezas estavam concentradas nas mãos de 1% dos seres humanos. No Brasil, em 2017 o número de bilionários subiu de 31 para 43. Esses bilionários tiveram um crescimento na sua renda de 13% em relação a 2016. Enquanto isso, os 50% mais pobres tiveram sua participação na renda nacional reduzida de 2,7 para 2%, uma queda de cerca de 30%. 

Tudo isso nos coloca um desafio: criar um novo modelo econômico, que evite todos esses erros: concentração de renda, exploração injusta do trabalho, destruição do ambiente, burocratização do Estado, corrupção do ser humano em sentido amplo, violência contra os pobres, opressão das mulheres, negação de toda e qualquer liberdade e outros erros inúmeros que temos que identificar e combater. Principalmente, um modelo que supere o capitalismo de uma vez por todas, não busque alianças com ele como fez a social-democracia.

Para se desenvolver como está, o capitalismo precisou fazer muitas transformações na vida das pessoas. Como um exemplo, vou citar a mudança de hábito para substituir a banha de porco pelo óleo de soja nos costumes culinários. O escritor Bariani Ortêncio tem um conto sobre esse tema, no livro Sertão sem Fim, onde ele descreve como eram feitas as trocas entre os vizinhos. Era uma economia de base comunitária, em um mês um vizinho matava um porco e vendia para os outros. No mês seguinte outro vizinho matava e fornecia para os demais, com o dinheiro circulando entre eles. A campanha que foi feita para dizer que banha de porco faz mal e o ideal era consumir óleo de soja, abrindo espaço para a primeira expansão dos monocultivos de soja e combatendo essa economia de base comunitária foi espetacular e absurda baseada em boatos, apelos visuais e opiniões médicas compradas. 

Hoje em dia, em qualquer cidade brasileira, a maioria consome óleo de cozinha produzido por uma empresa holandesa chamada Bunge. Nos carrinhos de compras mensais das famílias, grande parte dos produtos vêm das 12 maiores empresas mundiais de produção de alimentos: Pepsico, Nestlé, Kraft-Heinz, Coca Cola, General Mills, Kellogg’s, Mondelez, ABF Association Brithis Foods, Danone, Mars Inc, Mondelez Internacional e Unilever. Essas empresas vendem produtos com muito conservante, pouco valor nutricional, embalagens caras e poluidoras. No Brasil temos também a presença das grandes: Friboi, Perdigão-Sadia, Ambev entre outras fazendo a mesma coisa. Todos os produtos comercializados  retiram capital da comunidade e enviam para seus acionistas, concentrando e regionalizando o capital gerado pelo trabalho de todo o mundo. 

Essas reflexões já nos dão algumas pistas de por onde podemos caminhar. O mundo precisa criar novos espaços de economia de base comunitária para que as riquezas não sejam retiradas das comunidades e circulem entre seus membros. Mais vale comprar um produto da comunidade, mesmo que mais caro, do que enviar o capital para fora comprando um equivalente industrializado.

Por cima disso tudo ainda temos o aprofundamento da crise ambiental, que tem profunda relação com esse modo desenvolvimentista de reprodução da vida. As comunidades empobrecidas e saqueadas ficam vulneráveis em todos os sentidos e terão grandes dificuldades para sobreviver no cenário de crise ambiental que se apresenta para o futuro. O neoliberalismo projeta privatizar o acesso a água, manter o controle monopolista da energia, manter o controle da comercialização de alimentos, avançar seu controle sobre os territórios. Tudo isso empurra uma massa pobre para o nada. O livro “Levantado do Chão”, de Saramago fala um pouco sobre isso. No contexto da redefinição das relações de trabalho no campo, na institucionalização do capitalismo, o livro fala sobre o cercamento das áreas comunais, expulsando os camponeses de suas terras.

“… é preciso fazer alguma coisa pra não nos perdermos, porque uma vida assim não é justa, (…) não somos homens se desta vez não nos levantarmos do chão, nem isto seja por mim, seja por meu pai que está moto e não torna a ter outra vida…” José Saramago em Levanto do Chão.

 Agora, também não os querem nas cidades. Chico Buarque e Milton Nascimento resumem muito bem na sua canção com o mesmo nome que diz: 

“Como então? Desgarrados da terra? 

Como assim? Levantados do chão?

(…)

Como assim? Levitante colono?

Pasto aéreo? Celeste curral?

Um rebanho nas nuvens? Mas como?

Boi alado? Alazão sideral?

Que esquisita lavoura! Mas como?

Um arado no espaço? Será?

Choverá que laranja? Que pomo?

Gomo? Sumo? Granizo? Maná?”