Pantanal inteiro: quando os territórios ensinam que defender a água é defender a vida
De 24 de outubro a 9 de novembro de 2025, o Pantanal falou alto, e falou por inteiro. Não apenas em discursos ou documentos técnicos, mas nas mãos que plantam, nos saberes que atravessam gerações, nas canoas que cruzam o Rio Paraguai e nas vozes de quem vive da água e pela água. A Oficina-Feira dos Comitês Populares das Águas e do Clima, realizada em diferentes territórios do Pantanal de Mato Grosso, mostrou que o enfrentamento à crise climática nasce nos lugares onde a vida acontece de verdade.
A mobilização reuniu pescadores artesanais, apicultores, agricultores agroecológicos, povos originários, comunidades tradicionais, grupos culturais, juventude e comitê Populares. O evento foi uma vivência descentralizada, conectada pelos rios e pelos Corredores Bioculturais, reafirmando uma ideia central: o Pantanal não pode ser defendido pela metade. Ou ele é protegido por inteiro, ou todos perdem.
As oficinas funcionaram como espaços de diálogo profundo sobre a relação com as águas, os modos de produzir, as memórias, a ancestralidade e as estratégias de resistência diante das mudanças climáticas. Cada encontro fortaleceu a compreensão de que o Pantanal é um grande corredor de vida, onde natureza e cultura caminham juntas. Não por acaso, o processo culminou na Feira de Partilha Solidária, realizada em 12 de novembro, em comemoração pelo Dia do Pantanal e pelo Dia do Rio Paraguai (14), como parte da agenda da COP Pantanal, um momento de celebração, mística, arte e defesa das águas.
No esforço de aprofundar a dimensão de incidência política, no dia 11 de novembro foi realizada uma Audiência Pública, que deu grande visibilidade aos 25 anos de Dia do Rio Paraguai, aos enfrentamentos e às resistências construídas nos territórios. Mais de 1000 pessoas na plenária e a mídia da Assembleia Legislativa do MT fez toda a transmissão.
Para quem vive nos territórios, a agroecologia não é um conceito abstrato. É prática cotidiana, cuidado com o solo, com o rio e com as pessoas. “A agroecologia está presente no bem viver das famílias. Não é apenas deixar de usar veneno, é cuidar do próximo, da comunidade, das águas e da terra”, relatou Sanzio, do Comitê Popular do Rio Bugre, ao compartilhar produtos e experiências durante a oficina-feira.
Essa conexão entre território, cultura e natureza também apareceu com força na participação dos povos indígenas. Márcio Monzilar Corezomae, pertencente da etnia Balatiponé, e professor da Escola Estadual Indígena Julá Paré, na aldeia Umuina, explicou que sua comunidade vive praticamente em uma “ilha”, cercada pelos rios Bugres e Paraguai, rios que são a base da formação do Pantanal Mato-grossense. “Levamos nossa voz, nossa presença e nossos rituais para a COP Pantanal. Foi um momento importante, porque tratava da nossa vida e da nossa sobrevivência neste planeta”, afirmou.
Ao longo das atividades, mais de 150 pessoas participaram diretamente das oficinas e da feira, demonstrando que a luta contra as mudanças climáticas não se faz apenas em grandes conferências internacionais, mas sobretudo nos territórios. Os Comitês Populares reafirmaram, na prática, princípios como os Direitos da Natureza, a agroecologia, os corredores bioculturais e o cuidado permanente com o Rio Paraguai e o Pantanal como um todo.
A força simbólica do processo também esteve presente no reconhecimento institucional. Durante a COP Pantanal, foi celebrada a inclusão do Dia do Rio Paraguai, 14 de novembro, e Dia do Pantanal, 12 de novembro, no calendário oficial de Cáceres, uma conquista construída com décadas de mobilização popular. Para Sandra Maria Netto, do Comitê Popular das Águas e do Clima de Cáceres, a participação nas oficinas-feiras reforçou o valor de uma agricultura responsável e sustentável, capaz de enfrentar as injustiças climáticas que atingem o planeta.
Entre saberes e sabores, a feira revelou que defender as águas é defender o presente e o futuro. Como resumiu Sílvio, da Escola de Ativismo, os comitês cuidam das águas e da vida porque respeitam os ritmos do território, suas memórias e suas lutas. “É possível viver o corredor biocultural na prática”, afirmou.
No Pantanal, a mensagem é direta e sem rodeios: a luta pela água é a luta pela vida. E vale para todos os biomas. Sem água, não há futuro possível. O que essa mobilização mostrou é que, enquanto houver povos dispostos a cuidar da terra, dos rios e uns dos outros, ainda há esperança, uma esperança que nasce da prática, do território e do compromisso coletivo com a vida.
