DestaqueNotícias

Seminário Nacional do FMCJS em Brasília reafirma compromisso com a defesa da vida e dos biomas

Utopia, Rio do Tempo, Direitos da Natureza e o compromisso de “esperançar” a juventude estiveram no centro dos debates do Seminário Nacional do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS), realizado entre os dias 23 e 26 de fevereiro de 2026, no Centro Cultural de Brasília.

Durante quatro dias, representantes de organizações sociais, povos indígenas, comunidades tradicionais e lideranças socioambientais dos diferentes biomas brasileiros se reuniram para reafirmar a missão que há 15 anos orienta o Fórum: defender a vida da Mãe Terra e de todos os seus seres vivos.

“Hoje se fala muito mais nas distopias do que nas utopias. Mas nós permanecemos com os nossos sonhos…A utopia não é apenas uma coisa vazia, um sonho, uma ideia distante. Não é impossível, não. A utopia é a realização nossa no sentido pleno das possibilidades… É importante manter a utopia, porque ela nos ajuda, nos provoca, nos convida a continuar caminhando. Nosso sonho é que pudéssemos ter reencontrado um caminho de convivência com a Mãe Terra.” (Ivo Poletto)

O Seminário, “ 15 anos do FMCJS: Ecologia Integral em Rede construindo a sociedade do Bem Viver” se constituiu como um espaço de escuta, partilha de experiências e construção coletiva. Lideranças de todo o país compartilharam saberes, desafios e perspectivas, em uma programação que integrou memória avaliativa, definição de estratégias e celebração das conquistas acumuladas ao longo dessa caminhada.

“Não nos deixemos levar pela falsa notícia de que só os que são contra é que estão ganhando (…)Temos muito caminho feito e é preciso apostar na riqueza desses caminhos (…) Que a celebração desses 15 anos tenha o caráter de um novo compromisso para enfrentar os novos desafios.” (Ivo Poletto)

Vitória e desafios

Entre os acontecimentos celebrados pelos participantes destacou-se a vitória dos povos indígenas e das comunidades tradicionais em Santarém, com a revogação do decreto 12.600. A medida previa a drenagem do leito do Rio Tapajós e poderia abrir precedentes para a privatização de rios na região. A decisão foi anunciada enquanto o Seminário ainda estava em curso, o que intensificou o sentimento de conquista coletiva e foi reconhecido como um avanço significativo na defesa dos territórios e dos direitos da Natureza.

“Hoje é um momento muito importante para nós, povos indígenas (…) A gente ficou muito feliz porque derrubaram esse decreto que ia prejudicar o nosso rio (…) O rio é nossa estrada, é nossa vida (…) Nós estamos aqui para defender o nosso território, o nosso povo (…)  É importante estar aqui falando para vocês, porque essa luta não é só nossa, é de todos.”
(Cacique Carlos Batista de Souza – Paraíba – Povo Tabajara)

Nesse contexto, rios como o Rio Madeira, o Tapajós e o Rio Tocantins, essenciais à vida, aos modos de existir e à cultura de inúmeras populações, foram reafirmados como símbolos da mobilização permanente em defesa da água, dos biomas e da própria vida.


“…E não tem como falar da ocupação sem falar da juventude ali presente (…) Os meninos ficavam de noite pegando chuva, de dia pegando sol, eles adoeceram, mas continuavam ali, firmes. Relembrar tudo isso e é muito emocionante. Sabe porque? Em alguns momentos a gente pensava: ‘poxa, será que isso vai dar em nada?’ ‘Depois tudo vai ser em vão?’ . E ontem saiu a notícia. Então foi um alívio muito grande. E isso só mostra que com a pressão coletiva, com a participação das lideranças da juventude, a gente consegue ir além.
(Tais Godinho Correa – Santarém – PA) 

Para os participantes, essa vitória não representa um ponto final. A emergência climática e as pressões das grandes forças econômicas sobre os territórios seguem como ameaças concretas à vida nos biomas do país. A lógica predatória que coloca a busca por lucros acima do equilíbrio ecológico continua sendo um dos principais pontos de crítica no debate socioambiental.

“O agronegotóxico é que está levando à morte o nosso povo brasileiro e todos os biomas do Brasil e para além deles. Não é com soja e com milho transgênico envenenado que está se alimentando os povos do mundo. E é por isso que em sintonia com os povos do mundo, nossos rios Madeira, Tapajós e Tocantins e todos os rios do Brasil e nossos Biomas estamos para dizer não aos projetos de morte e sim à vida.”
(Iremar Ferreira)

Caminhos para 2026

Além de revisitar sua trajetória, o seminário também foi dedicado à construção de perspectivas para os próximos anos. Ao longo dos quatro dias, grupos de trabalho discutiram estratégias para fortalecer a atuação do Fórum diante dos desafios sociais, ambientais e políticos que se colocam no horizonte.

Entre as prioridades apontadas estão a ampliação da incidência política em 2026, o fortalecimento das redes de comunicação entre os núcleos e comunidades que compõem o Fórum e a criação de novas estratégias de mobilização da juventude em torno de uma ecologia integral e plural.

Essas reflexões serão incorporadas nas diretrizes que o FMCJS assumirá, fortalecendo as ações durante este e o próximo ano, ampliando sua atuação em defesa dos territórios e seus povos, da água, dos Direitos da Natureza, da Transição Energética, do cuidado com a Mãe Terra.

“…O avanço não foi só pelo que se fez, mas pelas parcerias que construímos ….”

(Vanda Salomão)

Carta Política

Em sua Carta Política, o Seminário Nacional do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental reafirmou a importância das práticas populares e da organização coletiva na defesa da vida, da natureza e dos territórios.

Ao mesmo tempo em que comemoraram conquistas recentes — como a revogação do decreto que previa a privatização de rios amazônicos e avanços na luta por justiça no caso Marielle Franco — os participantes alertaram para o agravamento da crise climática, o avanço de atividades predatórias sobre os biomas e a disseminação de desinformação sobre as mudanças climáticas.

Vindos de diferentes regiões do país, representantes de povos e comunidades reafirmaram que as respostas para esse cenário passam pela valorização dos modos de vida tradicionais, pela defesa da água, dos rios e da biodiversidade e pela construção coletiva de alternativas inspiradas no Bem Conviver.

Para os presentes, manter viva a utopia, mencionada no início do encontro, segue sendo parte essencial da caminhada por justiça socioambiental e pela construção de um futuro centrado no cuidado com a Terra e com todos os seus povos.

Conheça e divulgue a CARTA PÚBLICA do Seminário Nacional do FMCJS de 2026!