Encontro de Juventudes Amazônidas reúne jovens para debater Justiça Climática e Saberes Tradicionais
Colaboração: Astro Comunicação
Evento reuniu representantes de povos e comunidades de quatro estados e países vizinhos para partilhar práticas de resistência e propor soluções rumo à COP 30
Enquanto o mundo discute soluções globais para conter a crise climática, a juventude amazônida mostra que muitas das respostas já estão enraizadas na floresta. Entre os dias 17 e 19 de outubro de 2025, 27 jovens de diferentes povos, comunidades e territórios da Amazônia se reuniram na Chácara Dom Luciano, no km 43 da rodovia AM-010, para o Encontro da Juventude Amazônidas, com o tema “Saberes Ancestrais e Justiça Climática: Juventudes Amazônidas no Enfrentamento da Crise Climática – Banzeirando rumo à COP30”.
Organizado pelo Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES), o Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental (FMCJS), o Instituto Madeira Vivo (IMV) e o Movimento Tapajós Vivo. Com apoio do Centro MAGIS Amazônia e da Articulação Agro é Fogo. O evento teve o objetivo de articular saberes tradicionais, fortalecer a resistência dos territórios e estimular o protagonismo jovem nos debates ambientais que antecedem a COP30, a ser realizada em 2025, em Belém (PA).
“Esse é o momento de encontro e de formação de juventudes, de várias partes aqui da nossa região. O objetivo desta atividade é primeiro aproximar os saberes tradicionais dessas juventudes, refletir sobre como eles estão percebendo as mudanças climáticas e as emergências climáticas no seu dia a dia, mas também quais são as boas práticas que eles estão realizando a partir de sua organização social. É o momento deles também fazerem esse intercâmbio não só dos problemas, mas também dos caminhos para busca de soluções a partir de suas realidades”, explica o articulador, Iremar Ferreira, que é membro da equipe do FMCJS.

Durante três dias, os participantes mergulharam em rodas de conversa, vivências, oficinas e momentos de espiritualidade, construindo coletivamente reflexões e propostas que fortalecem a voz da juventude amazônica no enfrentamento à crise climática.
A Amazônia como centro da luta climática
O encontro foi marcado pela diversidade de povos e culturas. Jovens indígenas, ribeirinhos, extrativistas, agricultores familiares e representantes de movimentos sociais vindos de Rondônia, Pará, Amazonas, Roraima, além de Bolívia e Venezuela, compartilharam experiências e práticas que expressam a resistência cotidiana em defesa da vida.
“[É uma oportunidade participar] de um encontro de jovens, onde têm pessoas de outros estados, de outras comunidades, de outros territórios. É importante porque essa troca de experiência faz com que a gente amplie nossa perspectiva, o que acontece em outro território pode estar acontecendo o mesmo que no meu ou não. E, a partir disso, a gente consegue pensar em soluções diferentes. Cada experiência, cada vivência que eles têm, é muito valiosa a ser compartilhada com todo mundo”, afirmou afirmou Thaís Godinho, mobilizadora do Movimento Tapajós Vivo, ao destacar a importância de compreender a região como um organismo vivo que conecta o equilíbrio do planeta.
Para Thaís, compartilhar realidades e vivências é uma forma de mostrar que tudo está interligado, nada acontece de maneira isolada. Cada episódio impacta outros, assim como ocorre na natureza: a Amazônia, por exemplo, é o maior bioma do planeta e atua como um regulador climático global. Quando esse equilíbrio é alterado, as consequências se espalham muito além de suas fronteiras.
“Quando a gente fala sobre [o que acontece] não é uma coisa isolada. O que acontece aqui com certeza vai afetar outros lugares, não é algo isolado. É importante que eles saibam o que acontece aqui porque o que acontece aqui vai afetar o território deles também”, pontua.
Os debates ressaltaram a necessidade de se reconhecer o papel da juventude amazônida como guardiã dos saberes e práticas que historicamente sustentam a floresta. Mais do que vítimas das mudanças climáticas, esses jovens se apresentam como sujeitos políticos que enfrentam o avanço de projetos econômicos que ameaçam seus modos de vida.
Felipe Gabriel Mura, liderança indígena da aldeia Lago do Soares, no município de Autazes (AM), esteve representando sua comunidade no evento. Sua aldeia é a principal impactada pelo projeto Potássio Autazes, uma mina em desenvolvimento no município para produzir cloreto de potássio, um fertilizante essencial para o agronegócio. Eles criaram a IRMA – Organização da Resistência Indígena Mura de Autazes para fortalecer a luta contra a mineração e defesa do território.
“Autazes é composta por 37 aldeias, mas dessas 37, somente cinco hoje não fazem parte, não são a favor da mineração — são cinco a favor da demarcação. As outras aldeias lutam pela mineração. Infelizmente, essas empresas chegam dentro do território sem consulta nenhuma, que é algo que o Brasil é signatário da OIT 169, que deveria seguir. Mas em nenhum momento as empresas ou o Estado brasileiro consultam os povos indígenas, passam por cima da própria Constituição Federal, a gente tem experiências de vários lugares, tanto pelo contato próximo quanto por estar nesses locais. A gente tem contato, principalmente, com as pessoas que sofreram com o atentado da Vale, pessoas de Brumadinho e Mariana, que sofreram com a mineração. É isso que a gente não quer que aconteça no nosso território”, pontuou.
Resistência e protagonismo juvenil
O encontro reforçou que justiça climática não se constrói apenas com políticas públicas, mas com o fortalecimento das comunidades e o respeito à diversidade dos povos. Para muitos jovens, a resistência nasce da educação, da arte e da comunicação.
“Através do ComVida, começamos a formar a juventude para participar do reconhecimento do Rio Laje como sujeito de direitos. Aprender a registrar, mobilizar e dar visibilidade à nossa luta é essencial para que as futuras gerações possam continuar defendendo o território”, destacou Érica Canoé, do povo Oro Mon e Kanoé, de Rondônia.

As oficinas realizadas durante o evento envolveram técnicas de educomunicação, práticas artísticas, desenho, música e poesia, como formas de expressão e denúncia. Esses espaços também se mostraram fundamentais para aproximar jovens de contextos diferentes, mas unidos pela mesma causa.
“É nessa perspectiva: de dar continuidade, de assessorá-los — não de fazer por eles, mas de instrumentalizá-los para que eles possam levar e reforçar isso em suas comunidades porque cada jovem tem uma realidade diferente na sua região”, afirmou Mary Nelys , analista social do SARES, sobre o papel formativo do encontro.
Para Glaucirleide Castro, dos povos Sateré-Mawé e Makuxi, de Roraima, o evento foi um espaço de reafirmação da identidade indígena e da responsabilidade das novas gerações.
“Eu lembro dos nossos antepassados, que a gente, como filhos da retomada — nós somos filhos da retomada — então a gente tem que trazer nossas raízes. Essas mudanças estão fazendo tanto mal pro nosso planeta quanto para nós mesmos. A gente leva a culpa porque estamos usando os nossos recursos naturais, que tão morrendo, já tão sendo apagados — são memórias sendo apagadas. Enquanto nós estamos aqui pra lutar, a ter essa outra visão sobre mudanças climáticas”, disse.
Banzeirando rumo à COP30
Além da troca de experiências, o encontro teve como meta preparar os jovens para participar ativamente da COP 30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que pela primeira vez será sediada na Amazônia. As reflexões e propostas debatidas durante o evento servirão de base para documentos e ações que serão levados a fóruns internacionais.
“Temos em torno de dez jovens que estarão indo para a COP30, levando um material fresquinho dessa reflexão coletiva. Eles levarão pra lá um conteúdo com o olhar dessa grande região, eu acho que isso é importante, não é só a minha comunidade, ele não vai ser uma voz só da comunidade dele, ele já vai ter então esse conjunto. A ideia é que o evento seja o alimento que vai nutrir a intervenção deles e delas, a partir das linguagens que eles estarão levando pra lá”, explicou novamente Iremar Ferreira, reforçando o caráter político e simbólico do encontro.
Para Albers Delgado, do povo Kumarakapay, da Venezuela, a troca internacional fortalece a união dos povos da Pan-Amazônia. “Eu consegui perceber que a gente tem uma coisa em comum, que é isso: o fortalecimento do nosso povo na atuação política, ambiental e territorial aqui no Brasil. O protagonismo da juventude é muito importante, porque somos nós que vamos levar isso para as futuras gerações”, pontuou.
Juventude que semeia futuro
O encerramento do encontro foi marcado por apresentações culturais, momentos de espiritualidade e o compromisso coletivo de manter viva a rede de juventudes amazônidas que vem se formando ao longo dos últimos anos. A mensagem que ecoou entre os participantes é de continuidade e esperança, a certeza de que o protagonismo jovem é uma das chaves para o enfrentamento da crise climática global.
“A diversidade de lutas, de pessoas, raças, etnias — tudo em um só objetivo, que é defender e lutar pela justiça climática e pelos saberes ancestrais que carregamos”, concluiu Thaís Godinho.
